VINHOS | Uma taça de Pelé, por favor

“Ama teu inimigo; porque só ele revelará teus erros e defeitos”. Lembrei varias vezes dessa frase de Benjamim Franklin durante uma viagem à Serra Gaúcha.

O Brasil sofre bastante com o preconceito que existe pela qualidade dos vinhos que são produzidos aqui. O curioso é que o preconceito é mais brasileiro que internacional. Na verdade o vinho brasileiro é praticamente desconhecido fora do Brasil. Prova disso é que em 2013, segundo o Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN), as exportações totais de vinhos e espumantes brasileiros chegaram a apenas 5,3 milhões de dólares.

Por outro lado, existe uma força de marketing das vinícolas nacionais, que “estimulam” jornais e revistas brasileiros a reconhecer a qualidade e o prestigio dos vinhos nacionais. Assim como nos Estados Unidos muita gente desconfia das avaliações de jornalistas como Robert Parker, ou as pontuações de revistas especializadas como Wine Espectator – que determinam com uma nota o sucesso ou fracasso de uma marca – muita gente no Brasil anda desconfiando do destaque que o vinho brasileiro vem ganhando na mídia nacional especializada.

Tal vez por isso eu tenha sido abordado com tanta “voracidade” pelas câmeras de uma emissora de tv na última vez que participei da Fenavinho. Quando os jornalistas souberam (não sei como, mas eles acabam sabendo tudo!) – que tinha um enófilo argentino degustando vinhos brasileiros; caíram em cima de mim como abelhas em cima do mel. E qual poderia ser a primeira pergunta da repórter? …. “Em sua opinião, qual vinho é melhor … o brasileiro ou o argentino?.

Antes de responder eu já estava imaginando a chamada que apareceria na parte inferior da tv acompanhando minha imagem na tela: “argentino critica duramente a qualidade do vinho brasileiro durante a Fenavinho”. O que a repórter não sabia é que eu moro no Brasil há mais de dez anos. Eu não caio mais nessa de decidir entre Pelé ou Maradona. É impossível comparar os atributos e características individuais de um vinho. É aquela conversa que não leva a nada porque o gosto é muito subjetivo. Quando somamos ao gosto um toque de paixão –como no vinho e no futebol- a situação se complica mais ainda.

Minha resposta para a repórter foi um resumo das conclusões as quais cheguei depois de horas de conversa com os produtores brasileiros. A primeira é que o vinho de qualidade no Brasil começou a ser produzido há pouquíssimos anos. O Brasil está engatinhando nesse mercado. A segunda e talvez a mais preocupante é o esforço que deve ser realizado no vinhedo para a obtenção de uvas viníferas de qualidade. A intervenção do homem no vinhedo para exterminar pragas e invasores é permanente nos vinhedos brasileiros. O índice pluviométrico tropical não é o indicado para o correto amadurecimento das uvas. E os custos de produção são altos. Alem do conhecido custo brasileiro (impostos, estradas, etc) é preciso importar tecnologia para a produção do vinho. Tanques de fermentação, barricas de carvalho, entre outros produtos.

Eu torço muito pelo Brasil (fora o futebol, claro!). Mas existem desafios importantes. Será necessário que das experiências no vinhedo e do conhecimento profundo do terroir, nasça um conjunto de atributos e características que determinem um estilo único de vinho brasileiro. Assim como a Argentina achou no Malbec seu Maradona, o Brasil precisará trabalhar duro e achar o seu Pelé. Palavra de inimigo. É beber para crer.

* Max é argentino com alma brasileira e apaixonado por vinhos

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