VINHOS | Vinho, história e magia

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Eu ainda não tinha completado 18 anos, morava em Porto Alegre há poucos meses, e tinha sido incumbido de comprar o vinho para uma janta com um grupo de colegas. Naquela noite, discutiríamos com profundidade toda a tecnologia que envolve a produção de geleia de laranja. Eu nem tinha idade legal para comprar bebidas e tinha medo que a caixa de um supermercado grande pedisse a minha carteira de identidade. Nem me ocorria a importância que uma casa especializada pode ter e, se tivesse me ocorrido, teria tido ainda menos coragem. Fui ao mercadinho da esquina, na Avenida Bento Gonçalves – eu morava no Partenon e tiroteios semanais já eram comuns naquela época. No tal mercadinho, só havia vinhos de mesa, com a exceção de uma solitária garrafa empoeirada de Valpolicella safra 1998.

Demorei três dias, quatro visitas ao mercadinho, e oito retiradas da garrafa da prateleira até, finalmente, ter coragem de comprar a garrafa que custava R$ 17,50. O meu orçamento diário para refeições era de R$ 10,00. Aqueles R$ 17,50 geravam, efetivamente, um impacto nas minhas contas – além do táxi que seria obrigado a pegar naquela noite. Mas contra os problemas orçamentários, contra a pouca quantidade de vinho para 5, sim, cinco pessoas , contra o meu medo de passar vergonha por não ter idade legal para comprar bebidas alcoólicas (agora estou pensando se ninguém tinha me contado ainda que eu tinha mudado de Caxias para Porto Alegre e não do Brasil para a Suécia); enfim, contra todos meus medos, havia todos os meus sonhos.

Desde que sou criança, ouvia o meu pai repetir que na Itália se elabora um vinho excepcional, e que apenas as melhores partes da uva eram usadas: o Reccioto della Valpolicella. Na época, eu não sabia muito bem o que esperar de um Valpolicella DOCG, em que é diferente de um Reccioto, nem se o preço era justo, nem se o vinho poderia estar estragado, nem se o vinho seria bom ainda que não estivesse estragado. Mal sabia o que significava para mim, mas, depois de tantas dúvidas, tive certeza de que deveria levar aquela garrafa. Para resumir a noite e provar que foi uma boa decisão: me apaixonei.

Acordei no dia seguinte repetindo: o vinho é uma bebida mágica.

Passei a ler tudo o que pude sobre vinhos. Retirei todos os livros sobre o assunto na biblioteca da engenharia de alimentos, li todos os livros sobre viticultura e enologia que pude da biblioteca da família. Enfim, passei a dedicar a minha vida acadêmica a estudar como se produzem uvas e se elaboram vinhos de qualidade. Porém, a verdade é que o vinho é uma bebida muito parecida com o pó mágico dos ilusionistas: é capaz de transformar tudo em magia. E foi uma palestra do sociólogo francês que me ajudou a perceber que engenharia alguma é capaz de explicar e ajudar a compreender o mundo atual.

O professor Michel Maffesoli foi muito questionado, confesso que não consegui acreditar muito na sua ideia, quando afirmou que o mundo estava passando por um processo de reencantamento. Que, se a modernidade tinha sido marcada pela busca da racionalização da vida, a contemporaneidade tinha aberto espaço novamente para o encantamento, para a magia. A essa altura, algum leitor que tenha tido paciência de chegar até aqui pode se perguntar: o vinho deixou de ser mágico alguma vez? Também passou por esse processo de racionalização da vida?

Sim, efetivamente o vinho foi racionalizado. O início desse processo pode ser marcado – para nos ajudar a definir um período de tempo – por outro francês: o Louis Pasteur. A jornada racionalizadora teve a mão de engenheiros, como Mattinotti, que criou o processo de fermentação em autoclaves, por enólogos, como Émyle Peynaud. Mas atingiu o seu auge com a simbiose Parker-Rolland. Robert Parker racionalizou o seu gosto com notas de 0 a 100; Michel Rolland racionalizou a enologia para se elaborar vinhos de alta qualidade, dentro de certos parâmetros em diversos locais.

E daí? Aí que o que move as paixões não é a razão, mas essa loucura (pequena ou grande) que todos temos. Aliás, um filósofo francês pode nos ajudar nisso. Com a palavra, Deleuze:

Há um mercado muito importante para alimentos cultivados sem agrotóxicos, que, além de serem menos ofensivos ao meio ambiente, não agridem a nossa saúde. Evidentemente, cuidar do futuro do planeta e da própria saúde é plenamente racional. Mas quando se trata de biodinâmica há um passo além: envolve uma relação religiosa do ser humano com o vinho, com a vinha e com o universo. Como as religiões ainda não são muito bem provadas cientificamente, há algo de mágico em todas as elas, essa” re-ligação“ com a própria verdade da existência humana.

Assim como os vinhos elaborados com métodos abandonados pela enologia em algum momento. Por exemplo, há uma onda de vinhos laranjas, vinhos elaborados como se supõe que fossem elaborados há milhares de anos, ou há centenas. Pouco importa. As suas características principais, os seus defeitos ou qualidades sensoriais importam menos ainda. O que importa são as suas histórias, que são capazes de reencantar o mundo, de trazer magia para as nossas vidas.

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