VINHOS | Vinícola Aurora: um patrimônio cultural do RS

Ainda me recordo muito bem: eu era um jovem jornalista, no início dos anos 1980, quando subi pela primeira vez à Serra Gaúcha para fazer uma reportagem sobre vinhos. Não lembro mais qual era a pauta, mas sei que essa minha primeira incursão pelo mundo do vinho brasileiro foi na Cooperativa Vinícola Aurora, de Bento Gonçalves.

Estão bem nítidos na minha memória os longos corredores escuros das caves subterrâneas, as enormes pipas vermelhas de madeira da cantina (hoje substituídas, em grande parte, por modernos tanques de inox refrigerados e por barricas de carvalho francês) e o aroma de vinho que impregnava o ambiente (cheiro de cantina, de que muita gente não gosta, mas que eu adoro).

Acho que foi amor à primeira vista. Fiquei encantado com aquele mundo frio, úmido, de penumbra e silêncio, onde as leveduras cumpriam sua laboriosa missão na mais completa invisibilidade, e no qual o vinho, como que por mágica,  nascia. A Aurora já era, então, a maior vinícola brasileira, com uma ampla gama de rótulos, e seus vinhos (o Marcus James à frente) logo seriam exportados até mesmo para os Estados Unidos, e ganhariam medalhas em inúmeros concursos internacionais.

Eu tive a certeza de que, a partir daquele dia, o vinho estaria, de uma maneira ou de outra, ligado à minha vida. Foi como se, ao penetrar naquele microcosmo subterrâneo de sombras e pedras, eu tivesse me reencontrado com minhas origens italianas, meio esquecidas pela vida urbana cosmopolita. Lembranças de antepassados distantes que faziam seu vinhozinho comum no porão de casa me vieram à mente, e eu soube que voltaria muitas vezes à Serra Gaúcha para provar seus vinhos e escrever sobre eles. O que, de fato aconteceu, ao longo das décadas seguintes, com maior ou menor regularidade, nos vários veículos de comunicação onde trabalhei. Até que, por uma dessas manobras insondáveis do destino, a crônica do vinho se converteu em uma atividade profissional.

O fato é que, depois de algumas experiências desastrosas com vinhos comuns de garrafão na adolescência, eu quase não bebia vinho naquela época. Só viria a me reconciliar com a bebida de Baco após os 20 e poucos anos de idade – por influência de amigos jornalistas mais velhos, com quem convivi na primeira metade da década de 1980 em Porto Alegre (alguns, com vivência europeia).

Foram eles que me apresentaram aos primeiros vinhos finos que bebi. Quase todos nacionais, da Serra Gaúcha. Porque vinho importado, nos anos 1980, era um luxo a que poucos privilegiados podiam ter acesso (rótulos estrangeiros a preços acessíveis só chegariam legalmente ao mercado brasileiro a partir do início da década de 1990, com a liberação das importações promovida pelo governo Collor).

Bebíamos naquela época os modestos vinhos de umas poucas vinícolas gaúchas ou multinacionais instaladas no Rio Grande do Sul: Garibaldi, Salton, Rio-Grandense, Peterlongo, Château La Cave, Martini e Rossi, Chandon, Almadén e, claro, Aurora, a maior e dona da mais completa linha de produtos – do humilde Sangue de Boi ao mais sofisticado (para a época) Conde de Foucauld.

Os rótulos, de um modo geral, exibiam nomes estrangeiros, títulos de nobreza, brasões medievais, nomes de regiões demarcadas europeias  e quase sempre aludiam à longa tradição vinícola do Velho Mundo. Rosés, brancos e suaves faziam muito sucesso então – mais do que os tintos (ainda nada se sabia sobre o Paradoxo Francês, que, a partir dos anos 1990, promoveria os vinhos tintos a “remédio” para o coração, fazendo crescer o seu consumo).

Por influência da indústria vinícola norte-americana, que desde o famoso Julgamento de Paris, em 1976, vinha se impondo mundialmente, os vinhos brasileiros já começavam a identificar com destaque em seus rótulos as variedades de uvas com as quais eram elaborados. Cabernet Franc e Riesling (Itálico) eram as cepas viníferas tintas e brancas mais populares. Afinamento de vinhos em barricas bordalesas de carvalho era coisa rara. Lembro bem do primeiro vinho nacional com passagem por carvalho que provei: o Marcus James, da Aurora. Estranhei bastante o aroma e o sabor – mas gostei.

De lá para cá, a indústria brasileira de vinhos evoluiu muito.  E a Aurora acompanhou essa evolução. A cooperativa enfrentou momentos difíceis, quase sucumbiu às crises econômicas dos anos 1980, mas, com a união de seus mais de mil associados e a gestão profissional moderna que adotou, deu a volta por cima e hoje é este patrimônio empresarial e cultural que orgulha os gaúchos. Para mim, que acompanhei esta história de perto nos últimos trinta anos, cada nova conquista da Aurora me emociona. Associados, colaboradores e dirigentes merecem parabéns pelo aniversário de 84 anos da Cooperativa Vinícola Aurora, que, com tantos sacrifícios,  ajudaram a construir.

  • 1 - Vinicola Aurora - Fachada Noite - Creditos Roali Majola

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